Relato de uma pegação com o universitário na festa do índio

Breno Agnes Queiróz

“São os Tupinambás tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que não cometam. […] São muito afeiçoados ao pecado nefando, entre os quais se não tem por afronta; e o que se serve de macho, se tem por valente, e contam esta bestialidade por proeza; e nas suas aldeias pelo sertão há alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas” Fonte: Gabriel Soares de Sousa. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Belo Horizonte, Itatiaia, 2001.

Adoro festas temáticas. Uma das primeiras de que participei, e que era obrigatório estar vestido de acordo com o tema, se chamava “Programa de Índio”. Era numa república de estudantes, dois reais pra entrar (ou “doilão”, pra valorizar os míseros reais), bebida barata (um copinho com pinga de sabor por 50 centavos, duas brejas por 5 conto) e um monte de gente louca. 

O bom dessa festa não eram os preços, e nem o fato de ter uma penca de universitários longe dos pais, bêbados e um mais delicioso que o outro… mas o amigo que me chamou explicou que quem não fosse fantasiado de índio teria que ficar a festa inteira sem camisa e fazer tracinhos de guache na bochecha e no peito. 

Eu tinha 17 anos e já era bem peludinho, então fiquei com vergonha de chegar lá e ter que tirar a camisa. Até hoje eu acredito que pelos afastam caras na primeira impressão, mas também sei que muitos adoram. Meu amigo disse que, com certeza, eu acharia alguma coisa boa nessa festa.

Rapidão eu corri na papelaria, comprei guache e uns papéis coloridos e fiz um cocar porcamente improvisado. Coloquei uma camiseta marrom agarradinha e joguei uns colares feitos de sementes. Eu tava um indiozinho pronto pra fazer barulho.

Quando chegamos à porta da festa eu não consegui conter o tesão. Era muito gato ali, metade sem camisa. Eu já tava ficando de barraca armada (ou de tenda armada sei lá). Pagamos, entramos e fomos conhecer o território.

A entrada era pela garagem e tinha um freezer num canto com uma mesa improvisando um bar. A sala de entrada virou uma pista de dança com DJ e tudo. Pelo corredor lateral era o acesso a um quintal enorme que tinha uma piscina infantil cheia de peixes de isopor pro povo brincar de pescaria. Na cozinha estavam vendendo salgadinho, bala, pipoca e canjica. Mais pro fundo tinha uma espécie de edícula e o banheiro masculino (o feminino era dentro da casa).

Na porta da edícula estava escrito “Oca” num cartaz feito com alguma coisa que parecia palha. Lá dentro tinham umas 5 redes e uns casaizinhos já de fogo. Mas meu amigo cortou o barato e disse pra eu tomar cuidado porque era uma festa hétero e nem todo hétero é legal.

Por mim tudo bem, fiquei andando, vendo uns peitorais e morrendo de inveja da mulherada que passava a mão neles … Se inveja matasse eu já teria virado uma vitória régia!!! Aquela festa de índio já estava quase virando um programa de índio pra mim. Eu tava ficando bebinho e resolvi dançar na “sala-pista-de-dança”  com meu amigo, que já estava enrabichado com um cara que ele conhecia da faculdade. 

A sala tava cheia e, assim que entrei, dei de cara com um peitoral e mamilos de dar água na boca. Mas meu amigo puxou meu braço, me trouxe de volta à realidade e ficamos dançando perto da janela. De vez em quando meu amigo dava umas passadas de mão nervosas no cara que tava com ele. Um cara atrás da gente viu uma das patoladas e eu olhei pra ele bem na hora que ele viu. Eu me preparei pra qualquer coisa, imagina se ele começa a bater na gente? 

Mas ele foi chegando mais perto de mim e começou a dar uns chutes de leve no meu calcanhar, até que uma hora ele encostou inteiro em mim! Não sei como a tinta da minha cara não derreteu porque meu rosto pegou fogo! O cara era alto, o queixo dele batia na minha cabeça. Como ele percebeu que eu tava gostando, segurou um dos meus cotovelos e esfregou a mandioca dele em mim. Ahhhh eu quase dei um grito de guerra, aquele era o sinal de fumaça que eu esperava!

Ele chegou perto da minha orelha e disse “Vamo pegar mais uma breja?” Eu disse “ahn-han” e ele foi me empurrando pra porta enquanto eu ia desviando do povo. Pegamos a cerveja e ele me levou pra conversar no fundo da casa. Conversamos um bom tempo, ele disse que fazia engenharia de alguma coisa e tinha 22. 

Ali estava meu tupiniquim dos lábios de mel, cujos cabelos eram mais negros que a asa da graúna. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Tinha entradinhas dos lados do abdome e uns mamilos moreninhos em cima de peitorais firmes e macios. Poucos pelos no corpo, só uns pelinhos lambuzados de guache no meio dos peitos e um pouco mais fartos no “caminho da felicidade” – aquela trilhazinha de pelos que vão do umbigo até o nabo e as batatas.

Como eu já tinha bebido demais, e tava meio sem noção, comecei a arrancar a tinta seca dos pelos dele… e ele dava muchadinhas no tanquinho a cada puxão. Então ele disse “vem, vamo pra oca” e fomos. 

Entramos numa rede, num canto escuro. Eu perguntei “Num vai dar problema?”. Ele disse “Não, o povo aqui é sussa, mas tem que ser isolado. E eu sou um dos moradores da casa”. Então perguntei “E porque você tá sem camisa e pintado? Os donos não são liberados de pagar entrada ou ficar fantasiados?” Ele olhou pra mim com uma cara de sacana e disse “E eu ia perder a oportunidade de sentir você arrancando pedacinhos de tinta de mim?”

Ele fechou a rede e começamos a nos beijar, deitados. Acho que ele gostava de dor, porque ele respirava forte sempre que eu dava uma mordida nos lábios dele (e eu sou quase um índio canibal), e se contorcia e apertava minha cintura sempre que eu puxava um pelinho com tinta. Como será que as pessoas estavam vendo aquela rede se agitando tanto? Fui tirando lascas de tinta cada vez mais próximas da calça, até que eu finalmente cheguei no cachimbo da paz. Ele fez o mesmo, e como a gente sabia que não daria pra fazer muito mais coisas ali, começamos a tocar tambor um para o outro. 

Antes que a gente chovesse e se lambuzasse naquela dança da chuva dentro da rede, fomos para o quarto dele. Tiramos a roupa. E como este é só mais um conto de pegação vou apenas dizer que no final eu adormeci, sendo abraçado por trás pelo cacique da tribo, melecados de tinta guache, cerveja e mingau de mandioca, enquanto ele cantarolava na minha orelha ”um, dois, três indiozinhos, quatro, cinco, seis, indiozinhos…”

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