A CAÇADA

I

            Ponai-é encostou a lança no tronco da árvore, ergueu a cabeça e, com a mão direita erguida frente ao rosto, buscou alcançar o mais longe possível com o olhar.Apenas viu o verde da folhagem indo e vindo de leve, com o vento. Estufou as narinas. Nenhum cheiro que não fosse conhecido. Foi quando ouviu o som abafado.

             Apanhou a lança e caminhou com cuidado, para a frente. Seus pés pareciam flutuar, tão pouco ruído faziam. O  farfalhar das folhas roçando em seu corpo podia ser atribuído ao vento.

            Ponai-é caminhava tenso.

            A cada metro percorrido, aumentavam os cuidados. O som agora era mais forte. Preparou-se para o ataque. O corpo arqueou-se devagar. O braço erguido tinha os músculos fortes firmes como cipós entrelaçados. O outro braço fazia mira frente ao corpo. Os olhos pequenos estavam fixos no alvo.

            Ponai-é fez o arremesso.

II

            Ela estava enrodilhada.Apenas a cabeça estava erguida, não sendo visível entre as folhagens caídas ao chão. Os olhinhos redondos parados fixavam à sua frente.      

           Estava imóvel.

            Somente a língua finíssima movimentava-se, indo e vindo.

            O corpo multicolorido se contorceu um pouco, com um ligeiro e quase imperceptível estremecimento.

            A boca desarticulada abriu-se rápida, expondo duas presas como lâminas.                               Curvas. Fatais.

                Como um relâmpago colorido lançou-se no ar

III

            Os enormes patos selvagens esvoaçavam sobre o lago.

            Suas grandes asas, quando agitadas, produziam nele pequenas ondas. Mergulhavam na água e se erguiam com minúsculos peixinhos nos longos bicos arredondados.

             Eram tantos e tão despreocupados estavam que só se assustaram quando um, atingido em cheio pela lança arremessada com precisão, soltou gritos alucinados e se debateu sobre a água.

             O bando, então, partiu em barulhenta revoada.

IV

O lago, antes calmo, estava agora agitado e tingindo- se de vermelho.

No meio, boiando, o enorme pato selvagem não se debatia mais.

            A víbora rastejou entre preguiçosa e sonolenta, o corpo remexendo-se entre a folhagem.

            Ponai-é, a boca retorcida num último desesperado esforço para respirar e conter a dor, estava caído de costas, contorcendo-se, a mão esticada sobre a perna de onde escorria um pequeno filete de sangue.

            Em minutos, a floresta voltou a ser silenciosa, bela, atraente e misteriosa como são e devem ser todas as coisas desconhecidas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s