A TRAVESSIA

Imagem gratis no Pixabay - Horizonte, Mar, Blue, Água | Paisagem ...

I

            Primeiro, foram pingos indecisos, espaçados. Depois, uma chuva torrencial. O céu, antes azul, tornou-se escuro. O sol, que queimava sua pele já ferida e ardente, desapareceu sob a grande nuvem. A areia escaldante foi, pouco a pouco, ficando fria. Pequenas poças se formavam por toda parte.

            Ao sentir a chuva molhando seu corpo torturado pelo sol, tomou consciência da dor. A água penetrava na pele que ardia como se estivesse em brasa. Curvou-se com dificuldades e sentou-se na areia molhada. Ficou ali assim, quieto, até que o corpo, de tão encharcado, deixou de doer.

            Os lábios, partidos pelo sol e pela sede foram aliviados. Novo sopro de vida agitou todo o seu corpo e reavivou seu espírito.

II

            Com a chegada da noite, o frio tornou-se, também, insuportável. Antes, a areia quente do deserto amenizava o gélido da noite. Agora, no entanto, a areia molhada não tinha como ser aquecida.

             Enrolado na grossa manta passou longo tempo observando o céu. As estrelas cintilavam e, vez por outra, uma desprendia-se e, rápido, atravessava  a noite.

III

            Pela manhã, passada a chuva, reiniciou a caminhada.

            Na areia, apenas as marcas de suas passadas.

            Nenhum sinal de que outro ser humano tivesse feito, antes, aquele mesmo percurso.             Apenas abutres eram vistos voando em círculos no céu, a grande altitude. Esperavam que ele caísse exausto. Aí, se banqueteariam.

            O vento quente que soprava contra o seu rosto não deixava nenhum outro som chegar até os seus ouvidos. Apenas o ruído feito pelos grãos de areia levados pelo vento.

IV

            Naquela noite, quando tudo era silêncio e o vento era calmo, um outro ruído se fez ouvir. Ele escutou atentamente. Depois, ergueu-se e reiniciou a caminhada, noite à dentro, os olhos buscando enxergar na escuridão.

            Lentamente, caminhou até que o viu.

V

            Lá estava ele diante de si, com suas grandes ondas. O mar, que buscara por tantos dias que já nem se lembrava mais quantos.

            Sorrindo, sentou-se à beira da água, na umidade da areia, observando o horizonte distante. Então, ajoelhou-se e agradeceu ao Senhor.

            Descobrira como poderia retirar todo o seu povo do amargo cativeiro, levando-o através do deserto, até ao mar. Seria possível.

            Bastaria seguir a estrela que recebera como guia.

            Afinal, confiavam apenas nele, Moisés.

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