A SEREIA

Há, onde eu nasci, dois rios que se encontram bem no meio da cidade, engrossam suas águas e seguem como um só, rumo ao mar, distante. Ao lembrar-me deles, sinto o cheiro de mato das suas margens, ouço o som suave das suas águas e até o seu frescor, ao tocarem o meu corpo. Mas, sobretudo, vem a minha lembrança a figura maravilhosa da Sereia. Ah, como era linda a Sereia.

É lógico que esse não era o seu nome real. Chamava-se Totonha ou Antonia, seu nome de verdade. Morava em uma das ruas que, saindo da pracinha principal, terminava na beira do rio, num lugar que chamávamos de prainha. Era lá onde ficava o bote de madeira que fazia a travessia para o outro lado do rio, onde havia uma espécie de continuação da cidade. Um lugar com algumas poucas casas, que só podia ser alcançado através do rio, pelo bote, já que não tinha nenhuma ponte.

Era também, na prainha, a parte do rio onde nadávamos. Todos os dias algum de nós, da minha época, se lançava do barranco alto, num salto acrobático, mergulhava na agua e seguia nadando até ao outro lado. Lá, na outra margem, uns trinta metros depois, onde havia um espaço largo, sem mato e cheio de areia, saíamos da água, descansávamos e fazíamos o caminho de volta até a margem de onde havíamos saído.

Ah, mas e a Sereia? Bom, a Sereia também usava esse mesmo espaço do rio para nadar. Só que ela o fazia de forma diferente. Não atravessava simplesmente o rio, como era o nosso costume. Ela se lançava na água, nadava até a metade do rio e ficava lá, brincando na correnteza. Mergulhava, sumindo no fundo e voltava, metros abaixo de onde afundara. Nadava contra a correnteza para logo depois deixar-se levar pelas águas até determinado ponto. Aí, mergulhava de novo e recomeçava tudo outra vez. Ficava horas brincando. Sozinha. Mesmo quando havia alguém na margem, querendo também nadar, ela sempre continuava sozinha. Ninguém, mas ninguém mesmo, entrava na água quando ela estava lá. Uma espécie de respeito ou de acordo tácito, que nunca fora feito, de verdade, mas que todos respeitávamos.

Como ela era? Linda, simplesmente linda. Uma menina morena, queimada de sol, que devia ter, a época, uns dezesseis, dezessete anos, com os olhos muito azuis e sempre mostrando um sorriso verdadeiramente lindo no rosto. E o seu corpo era curvilíneo e gingava levemente, com alto chamado sensual, ao andar. A Sereia era uma linda mulher.

Vestia-se sempre com vestidos curtos, deixando que víssemos uma boa parte das suas pernas. Tinha coxas bem feitas, como se tivessem sido torneadas por algum artista. Nem finas nem grossas. Mas todos a desejávamos. E gostávamos de vê-la nadando na prainha.

A razão mesmo, para que gostássemos tanto de vê-la nadando no rio era o fato de que, para fazê-lo, usava sempre um vestido branco, fino, que deixava a mostra o seu corpo. Não usava sutiã. Apenas uma calcinha atrevida protegia sua intimidade.

Diziam as más linguas que o respeito havia sido imposto pela Sereia quando, um dia, logo após ter chegado de mudança para a cidade, entrou pela primeira vez no rio para se banhar e foi assediada por um rapaz,  de uma família muito rica. Ele, quando a viu, logo entrou na água atrás dela e tentou bolinar o seu corpo, primeiro de uma forma discreta, mas tornando-se mais violento quando ela o repeliu. Então, os que assistiam a cena disseram que ela, simplesmente, lhe deu uma tremenda surra que começou na água mesmo e terminou na beira do rio, na areia da praia. Bateu nele sem dó nem piedade até que o deixou desmaiado. Nunca mais ninguém entrou atrás dela, no rio, quando ia nadar. Nascera assim o respeito pelo banho da Sereia.

Ela dissera, depois, mais tarde, que havia se mudado do Rio de Janeiro e que lá, praticava o que na época era conhecido como artes marciais. Dominava com maestria algumas técnicas de lutas orientais, que envolviam manobras usadas por soldados quando em guerra, para defesa pessoal no corpo a corpo.

A Sereia demonstrou, na prática, ser muito capaz de se defender. O rapaz nunca mais foi visto na beira do rio.

Eu a admirava muito e fazia parte do pequeno círculo dos seus amigos. Digo amigos, porque ela tinha muitas amigas que a cercavam de atenção, ouvindo suas histórias sobre o Rio de Janeiro, então recentemente transformado em Estado da Guanabara. Até pouco tempo antes, a cidade maravilhosa fora a Capital Federal. Cheia de encantamentos e de malandragem.

 Ela dizia que havia nascido e morado em um morro, numa das mais conhecidas favelas da cidade, a Favela do Vidigal. Lá, crescera e aprendera a se virar. Ninguém dizia ela, punha nela as mãos sem que ela deixasse. E, se forçasse, apanhava pra ver o que era bom.

Como seu amigo, ouvia suas histórias, ora acreditando, ora desconfiando que inventava tudo, ora descrendo totalmente do que dizia pelos absurdos que dizia. Mas nunca dizia a ela o que eu pensava. Respeito.

Um dia, ela me disse que iria receber a visita de um primo, que viria do  passar uns dias em sua casa e que queria que eu o conhecesse. Vai conhecer um pouco mais de mim, conhecendo ele, me disse. Dito e feito.

O primo da Sereia chamava-se Carlos, mas ela o chamava de Carlinhos Maioral. E ele só a chamava de Totonha

Era um sujeito diferente das pessoas com as quais convivíamos. Tinha uma acentuada preocupação com segurança a ponto de não se sentar em uma roda com as costas para a entrada. Ficava sempre de frente. Gingava muito o corpo ao andar, os braços balançando junto ao corpo num caminhar típico dos malandros que víamos no cinema. Muito queimado de sol, nos dizia que vivia na praia, na arei, no sol. Que era ali que trabalhava. Junto do povão que gostava do mar. Tudo nele, desde a sua fala até o modo de caminhar e o jeito esquisito de se mostrar assustado com tudo, indicava, sem nenhuma dúvida, que era um tremendo malandro. Era exímio jogador de sinuca. Só perdia quando queria. E só jogava apostando qualquer coisa. Bebida, cigarros, dinheiro. Uma vez eu o vi apostar uma foda em uma das mulheres da zona. Ganhou e o perdedor teve que pagar a mulher para que ele a fodesse. Em suma, Carlinhos parecia perigoso. E era perigoso.

A Sereia mudou completamente depois que o Carlinhos chegou. Quase não a víamos mais. Passava a maior parte do tempo com o seu primo, em casa. Ou, quando ele estava zanzando pela cidade, jogando sinuca ou conversa fora, ela permanecia em casa. Só sai para ir ao rio nadar.

Uma noite, o calor insuportável não me deixava dormir e resolvi sair um pouco e fui caminhando pela praça, já vazia. Ao olhar para a rua onde morava a Sereia eu vi caminhando em direção a prainha. Não sei porque alguma coisa me fez segui-la, sem que a deixasse perceber. Vi quando chegou na areia, tirou toda a roupa, jogou de lado e entrou na água. A luz da luz era suficiente para que eu a visse indo ao encontro do Carlinhos, que lá estava, parado, firme, no meio da correnteza. Enquanto eles de abraçavam eu me posicionei na beira do rio, atrás de uma moita alta de capim e fiquei observando.

Eles se beijaram e nadaram até o outro lado do rio. Eu pude perceber os seus vultos enquanto fodiam com vontade e com volúpia. Ficaram mais de uma hora fodendo. Depois, entraram na agua e vi quando o Carlinhos saiu bem do lado onde eu estava escondido, enquanto a Sereia ficava, lá na água, brincando. Uns vinte minutos depois, saiu completamente nua, caminhando para onde tinha jogado a roupa.

Foi quando eu apareci, saindo de onde estivera escondido, segurando em uma das mãos o seu vestido e sua calcinha enquanto, com a outra mão, fazia para ela um sinal de que ficasse em silêncio. Ela entendeu e não discutiu.

Eu nunca, até então, tinha fodido uma mulher. A Sereia foi a minha primeira foda verdadeira. Mas ali, naquela noite, na beira do rio, ela me ensinou tudo o que sabia e me exauriu por inteiro.

 Eu a fodi, sob o comando dela, de todas as formas possíveis. Por umas duas horas ela me bateu punheta, chupou meu pau, fodi sua buceta e comi a sua bunda gostosamente. Depois, ao final, ela me sorriu dizendo que não aguentava mais, que estava esgotada pelo Carlinhos e por mim. E que já podia ir embora que o meu curso intensivo estava terminado.

Disse-me que o Carinhos iria embora de volta para o Rio na manhã do dia seguinte e que eu devia me apresentar de novo ali, na beira do rio, no outro dia, depois da nove da noite para receber o meu diploma.

A Antonia Totonha Sereia, desejada por todos, foi minha primeira mulher, minha primeira amante, meu primeiro amor e minha primeira paixão. Graças ao Carlinhos Maioral, o perigoso.

 Depois, uns dois anos depois, ela virou puta em Belo Horizonte.

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